quarta-feira, maio 08, 2013






Vou te contar uma coisa.



Um dia fui criadora de cavalos. Até ontem, precisamente. Eles eram igual a mim e eu igual a eles.
Minhas narinas fremiam junto com as deles quando disparavam descendo e subindo montes e, então sim, eu sabia que voava com meu corpo colado ao de cada um, o mesmo suor, os mesmos pelos, os músculos que se confundiam ; minhas quatro patas calçavam os cascos que usam e a força da pulsão corria em nossas veias.

Ontem nem desejei vê-los. Nunca mais. Eu os negociei, nada de ganho; tudo perda, mas a certeza de que estarão amados como os amo, cuidados com a mesma ternura com que lhes oferecia o capim mais macio colhido por mim. Meu corpo é um copo que tombou sobre a mesa e, por isto, a água escorreu ; não corremos mais.

O caminho é solo. Cantarei as músicas do vento para lembrar que um dia nós nos montamos e acarinhamos nossos pelos que agora, para que vocês fiquem bem, vestem a memória do que foi prazeroso , delicado. Mais humano que a humildade que sustenta o hálito de vocês quando achegavam seus rostos no meu.

Adeus.

2 comentários:

Jorge Carrano disse...

Querida Esther,
Este texto é mais do que uma despedida dos manga larga. Há um simbolismo, uma imagem subjetiva, uma mensagem codificada que nós outros não interpretamos.
Mas é belo, como suas poesias.
Beijo
PS: pensou que estivesse livre de mim, desde meu silêncio no Primeira Fonte?

esther maria duarte lucio bittencourt disse...

Carrano, de amigos nunca se fica livre. Se eles não nos falam por um tempo, estão tatuados em nós, assim como estamos tatuadas neles. De amigos, falo. O primeira fonte está calado mas sempre que posto no porcas , e é raro, você fala , amigo. Espero não ficar livre de você nunca, como se expressa. Para mim os silêncios tem o mesmo peso fraterno da presença.

Voce tem razão. Dou adeus a uma etapa da vida e inicio outra mais condizente com minha idade.Cavalgarei meu violino, minha voz. Obrigada por sua amizade